A energia propulsora da criacao.
A energia que bos leva a lugares inacreditáveis, inimagináveis, inconscientes. A energia que nos faz ir tao longe, que nos tira de nós mesmos, que nós faz ultrapassar nossas barreiras. Essa é a energia que me move no trabalho, que me impulsiona a entrar em sala de ensaio, a acordar a cada quarta e a cada sexta e ver sentido em ser performer solo, apesar da solidao e da dificuldade...
Como descobrir essa energia no nosso corpo? Como disponibilizar o corpo a produzir, ou a trazer a tona esse tipo de energia? Como explorá-la, aproveitá-la? Como dominá-la, transformá-la em acao, codificá-la? Como recuperá-la, deixar que ela se transforme, como mantê-la viva e primordial apesar da repeticao?
O ensaio de ontem foi pontuado dessas questoes. Uma terceira improvisacao sobre as energias AOLESCENTE (agora também chamada de ROMANTICA) e ADULTA (ou DESILUSAO). A retomada da desilusao, como era de se esperar, nao veio com a mesma intensidade da semana anterior. Nao me preocupo, sei que ela estava lá, o mesmo aconteceu outras vezes (com a VIUVA, por exemplo) e ela nao perdeu sua forca expressiva por causa disso. Mas uma pergunta ficou: Uma nova energia em improvisacao é sempre tao intensa porque ela nos surpreende e nos mostra um lado de nós mesmos que nós nao conheciamos (e consequentemente, sua retomada, mesmo que dotada da mesma qualidade de trabalho, nunca vai ser tao intensa, pois se trata da busca do conhecido)? Ou é apenas uma questao de plenitude, uma nova energia só surge porque estamos plenos, inconscientes, multifocados, e a sua retomada é um mero processo de um corpo minimamente consciente? O domínio de uma energia traz sua forma primaria de volta (e a resposta me vem com um enorme NAO, ela pode encontrar novamente sua intensidade, mas a partir do momento em que ela ganha forma e sentido ela se torna outra coisa, tem um outro grau de expressividade)
Estou filosofico. Deve ser um tipo de distracao porque ontem nao fui tomado, possuido, ontem possui, tomei, determinei o caminho. Estive consciente o tempo todo (com as vantagens e os problemas disso). Estive no comando. Pude perceber coisas com clareza, que me ajudam a definir algumas estruturas, ao mesmo tempo nao tive a intensidade de antes. É parte do processo. É o momento doloroso em que algo tao precioso se torna banal, pra que possa se transforma e encontrar um novo sentido. Nao acredito em teatro improvisado, ainda que trabalhe com frequencia com a idéia de improvisacao em cena. A energia primordial da criacao é tao fundamental quanto inscipiente. É um momento, nao um resultado. Mas os passos seguintes sao sempre dificeis, como se a cada vez eu tivesse que reaprender a andar.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008
Ensaios 13 e 15 de fevereiro
Voltar à velha disciplina. Reestabelecer as rotinas de trabalho. Definir a cada ensaio claramente objetivos a serem dominados, coisas a serem experimentadas. Nao esperar, nao depender de um estímulo externo que nao existe. Ter clareza sem perder a liberdade. Lembrar que mais importante do que o que se cria é porque se cria, que um bom conteudo independe da forma na qual ele é apresentado.
Essa foi uma boa semana de ensaios. As definicoes, as leituras e análises das últimas semanas surtiram um enorme efeito dentro do trabalho. A improvisacao desfocada de três semanas atrás parece hoje um passado distante. Agora eu já sei aonde estou indo e, ainda que o caminho pareca longo, é apenas uma questao de tempo até que eu posso trilhá-lo. Volto do ensaio otimista. Mexido. Transformado. Eu posso me envolver emocionalmente de forma profunda, mesmo sozinho em sala de trabalho. Houveram muitos momentos prazeirosos, com aquele frescor da primeira improvisacao, e também momentos de clareza dramaturgica, de desenvolvimento interno, de transformacao.
Para o trabalho dessa semana esolhi um dos pares paradoxais que determinei para Else, para me debrucar mais profundamente: A Adolescente e a Adulta. Na quarta feira a adolescente ficou mais forte, numa derivacao clara da forma como eu me propus a trabalhar, mas também por uma clara conexao entre ela e a energia original da donzela. A leveza que marca a segunda continua sendo uma caracteristica dominante, ainda que o olhar seja muito mais fantasioso e nao haja a idéia de um foco concreto para seducao. Alias, concretude é uma palavra que naocabe em relacao à adolescente. Tudo nela é abstrato, é fantasia, é sonho. Já hoje a adulta tomou corpo, forma, sentimento. No meio da improvisacao me veio a imagem de uma marquesa francesa caminhando rumo a guilhotina, tentando se manter neutra, intocada, apesar do turbilhao de coisas acontecendo dentro dela. Passar disso pra idéia do que aconteceria se Else realmente tivesse aceitado a proposta de Dorsday foi um pulo. A imagem dela, decepcionada, amargurada com a perspectiva de futuro que lhe resta, entrando no quarto e tentanto se manter absolutamente fria. Nao há desespero aparente, nao há nenhuma sensacao nos movimentos ou no irradiar do corpo. A tentantiva é de se manter fria, distante, como se isso fosse protegê-la da realidade. Como acao, surgiu uma sequencia simples mas interessante: sentada na cadeira, levanta, caminha um pouco, tira a blusa, se mostra para Dorsday, um giro completo, assume uma posicao pretensamente sensual (mas com energia neutra) e para nesse posicao. Depois volta a andar, ainda neutra, pega o casaco, veste o casaco e mai saindo, e só aí comeca a transparecer um nervosismo, que eu imagino seria o desencadear da energia pudica... Ainda fiz uma improvisacao com as duas energias combinadas, que teve momentos interessantes, mas ainda me parece um pouco inconsistente. De qualquer forma, as duas energias "nasceram", o que me leva agora a pensar se devo investir mais tempo nelas, para torna-las mais claras e definidas, ou se deveria tracar todas as energias e depois no jogo deixar que elas se clarifiquem?
Essa foi uma boa semana de ensaios. As definicoes, as leituras e análises das últimas semanas surtiram um enorme efeito dentro do trabalho. A improvisacao desfocada de três semanas atrás parece hoje um passado distante. Agora eu já sei aonde estou indo e, ainda que o caminho pareca longo, é apenas uma questao de tempo até que eu posso trilhá-lo. Volto do ensaio otimista. Mexido. Transformado. Eu posso me envolver emocionalmente de forma profunda, mesmo sozinho em sala de trabalho. Houveram muitos momentos prazeirosos, com aquele frescor da primeira improvisacao, e também momentos de clareza dramaturgica, de desenvolvimento interno, de transformacao.
Para o trabalho dessa semana esolhi um dos pares paradoxais que determinei para Else, para me debrucar mais profundamente: A Adolescente e a Adulta. Na quarta feira a adolescente ficou mais forte, numa derivacao clara da forma como eu me propus a trabalhar, mas também por uma clara conexao entre ela e a energia original da donzela. A leveza que marca a segunda continua sendo uma caracteristica dominante, ainda que o olhar seja muito mais fantasioso e nao haja a idéia de um foco concreto para seducao. Alias, concretude é uma palavra que naocabe em relacao à adolescente. Tudo nela é abstrato, é fantasia, é sonho. Já hoje a adulta tomou corpo, forma, sentimento. No meio da improvisacao me veio a imagem de uma marquesa francesa caminhando rumo a guilhotina, tentando se manter neutra, intocada, apesar do turbilhao de coisas acontecendo dentro dela. Passar disso pra idéia do que aconteceria se Else realmente tivesse aceitado a proposta de Dorsday foi um pulo. A imagem dela, decepcionada, amargurada com a perspectiva de futuro que lhe resta, entrando no quarto e tentanto se manter absolutamente fria. Nao há desespero aparente, nao há nenhuma sensacao nos movimentos ou no irradiar do corpo. A tentantiva é de se manter fria, distante, como se isso fosse protegê-la da realidade. Como acao, surgiu uma sequencia simples mas interessante: sentada na cadeira, levanta, caminha um pouco, tira a blusa, se mostra para Dorsday, um giro completo, assume uma posicao pretensamente sensual (mas com energia neutra) e para nesse posicao. Depois volta a andar, ainda neutra, pega o casaco, veste o casaco e mai saindo, e só aí comeca a transparecer um nervosismo, que eu imagino seria o desencadear da energia pudica... Ainda fiz uma improvisacao com as duas energias combinadas, que teve momentos interessantes, mas ainda me parece um pouco inconsistente. De qualquer forma, as duas energias "nasceram", o que me leva agora a pensar se devo investir mais tempo nelas, para torna-las mais claras e definidas, ou se deveria tracar todas as energias e depois no jogo deixar que elas se clarifiquem?
terça-feira, 12 de fevereiro de 2008
Semanas de febre e ócio
Duas semanas sem entrar em sala de ensaio.
Depois de um mês de pausa e apenas um ensaio relativamente conflituoso nada poderia ser pior.
Mas tive que aceitar o grito do meu corpo depois do treino, os 39 graus de febre, a dificuldade de conseguir sala e as crises existenciais como partes desse novo processo que estou comecando.
Amanha volto a trabalhar. Estou ansioso, mas ainda é confuso pra mim... Nao sei exatamente o que vou fazer em sala de ensaio. Aproveitei a semana pra reler o texto, refletir sobre ele, pensar novas estratégias de trabalho. Achei que nao fazia sentido abandonar o trabalho que vinha fazendo pra investir numa criacao de personagem, algo que nunca fiz, que nao sei como fazer, e que nao sei se consigo descobrir sozinho. Por isso decidi encontrar um outro caminho: procurar fragmentos claros de Else, e a partir deles buscar energias puras, julgando que a uniao dessas energias vai de alguma forma configurar uma Else pessoal, nao uma personagem do seculo XIX, e sim um reflexo do que ela seria em mim, no meu corpo - o que me parece um desenvolvimento mais lógico do que eu vinha fazendo ate aqui...
Um elemento que parece ser fundamental dentro dessa estratégia, e que dialoga diretamente com a maneira como eu penso e desenvolvo o meu trabalho, é a construcao de paradoxos. Dois me parecem essencias: um que eu denominei de ELSE ADOLESCENTE, que consttitui basicamente um olhar romantico sobre a existencia, um olhar esperancoso, basedao na ilusao de que alguém vai chegar a resolver os problemas pra ela contra uma ELSE ADULTA, que olha o mundo de forma objetiva e muitas vezes cínica, e sabe que ninguém vai salvá-la, sabe as consequencias dos seus atos, como um momento de tomada de consiencia dentro desse fluxo romantizado. Outro paradoxo claro é entre uma ELSE PUDICA, baseada na vergonha, nos valores sociais, na aparencia e na consequencia dos seus atos na maneira como o mundo olha pra ela contra uma ELSE LIBERTINA, que as vezes parece se divertir com o desenvolvimento da situacao, que gosta e quer ser desejada, que nao se importa, por momentos, com o olhar do mundo, mas apenas com seu próprio prazer. Por fim, há uma última else que me parece importante pra um primeiro desenvolvimento, que eu chamei de ELSE MORTA, que aparece nos momentos em que ela apresenta uma certa nostalgia pela morte, que ela diz que prefere morrer a ficar velha, na maneira como ela lida com o Veronal, e como ela fala com absoluta calma sobre a perspectiva de se matar. Poderia ainda se contrapor a ela uma ELSE VIVA, que aparece somente nos últimos momentos, quando ela já está a beira da morte, e que quer viver, que quer um pouco mais de tempo...
Montando, encontrando seis energias relacionadas a essas ELSES me parece ser possível estabelecer a personalidade multifacetada e compor uma personagem, sem abandonar as coisas nas quais eu acredito e ao mesmo temnpo dando conta da densidade do material literario.
Depois de um mês de pausa e apenas um ensaio relativamente conflituoso nada poderia ser pior.
Mas tive que aceitar o grito do meu corpo depois do treino, os 39 graus de febre, a dificuldade de conseguir sala e as crises existenciais como partes desse novo processo que estou comecando.
Amanha volto a trabalhar. Estou ansioso, mas ainda é confuso pra mim... Nao sei exatamente o que vou fazer em sala de ensaio. Aproveitei a semana pra reler o texto, refletir sobre ele, pensar novas estratégias de trabalho. Achei que nao fazia sentido abandonar o trabalho que vinha fazendo pra investir numa criacao de personagem, algo que nunca fiz, que nao sei como fazer, e que nao sei se consigo descobrir sozinho. Por isso decidi encontrar um outro caminho: procurar fragmentos claros de Else, e a partir deles buscar energias puras, julgando que a uniao dessas energias vai de alguma forma configurar uma Else pessoal, nao uma personagem do seculo XIX, e sim um reflexo do que ela seria em mim, no meu corpo - o que me parece um desenvolvimento mais lógico do que eu vinha fazendo ate aqui...
Um elemento que parece ser fundamental dentro dessa estratégia, e que dialoga diretamente com a maneira como eu penso e desenvolvo o meu trabalho, é a construcao de paradoxos. Dois me parecem essencias: um que eu denominei de ELSE ADOLESCENTE, que consttitui basicamente um olhar romantico sobre a existencia, um olhar esperancoso, basedao na ilusao de que alguém vai chegar a resolver os problemas pra ela contra uma ELSE ADULTA, que olha o mundo de forma objetiva e muitas vezes cínica, e sabe que ninguém vai salvá-la, sabe as consequencias dos seus atos, como um momento de tomada de consiencia dentro desse fluxo romantizado. Outro paradoxo claro é entre uma ELSE PUDICA, baseada na vergonha, nos valores sociais, na aparencia e na consequencia dos seus atos na maneira como o mundo olha pra ela contra uma ELSE LIBERTINA, que as vezes parece se divertir com o desenvolvimento da situacao, que gosta e quer ser desejada, que nao se importa, por momentos, com o olhar do mundo, mas apenas com seu próprio prazer. Por fim, há uma última else que me parece importante pra um primeiro desenvolvimento, que eu chamei de ELSE MORTA, que aparece nos momentos em que ela apresenta uma certa nostalgia pela morte, que ela diz que prefere morrer a ficar velha, na maneira como ela lida com o Veronal, e como ela fala com absoluta calma sobre a perspectiva de se matar. Poderia ainda se contrapor a ela uma ELSE VIVA, que aparece somente nos últimos momentos, quando ela já está a beira da morte, e que quer viver, que quer um pouco mais de tempo...
Montando, encontrando seis energias relacionadas a essas ELSES me parece ser possível estabelecer a personalidade multifacetada e compor uma personagem, sem abandonar as coisas nas quais eu acredito e ao mesmo temnpo dando conta da densidade do material literario.
sexta-feira, 25 de janeiro de 2008
Ensaio 25 de janeiro - a volta ao principio
Recomecar...
A dificuldade de ter um corpo vazio e nao ter certeza sobre o rumo a seguir... A vontade de experimentar novos caminhos, perdida na dificuldade de encontrá-los... Hoje foi um dia estranho. O redirecionamento do projeto me tirou o chao, me senti sem direcao, sem rumo, sem saber de que modo comecar, aonde queria chegar, etc. Acho que por tanto tempo trabalhei com clareza do meu caminho que foi difícil buscar alguma coisa nova e ainda incerta...
O exercício pra fortalecer a base (respondendo a algumas coisas levantadas durante as "apresentacoes" no Brasil) foi bem interessante e acho que trouxe alguns resultados. Ao menos sinto que consegui compreender melhor a que as pessoas se referem, nao tanto ao tônus, mas a uma dificuldade de simplesmente se manter em equilibrio, em se manter instavel. Talvez o problema do equilibrio precário seja exatamente sua característica principal, ele está em equilibrio, ainda que instável, ele nao podem cair para o desequilibrio, ele tem que se manter dentro das possibilidades do corpo de se estabilizar. Claro que a estrutura muscular ajuda e, quanto mais bem treinada ela estiver, mais amplas se tornam essas possibilidades... É isso que tenho que buscar. Foi muito bom também refazer a sequencia utilizando somente as pernas, foi possivel focar, entender melhor seu funcionamento, ou os momentos (em grande numero) em que seu uso se restringe a uma resposta ao movimento constante, sem significado ou energia própria...
O trabalho criativo em si foi mais dificil... Improvisar foi muito complicado, eu nao conseguia me manter no foco, nao conseguia manter a energia constante, nao conseguia ver a transformacao natural das coisas, racionalizei demais, enfim... A única coisa realmente interessante que apareceu, como potencial, foi um jogo entre aparência e caos interno que parece ser o fio condutor de Else por uma boa parte do texto (e sua ruptura seja talvez o grande motivo pras decisoes que ela acaba tomando). Será?
A dificuldade de ter um corpo vazio e nao ter certeza sobre o rumo a seguir... A vontade de experimentar novos caminhos, perdida na dificuldade de encontrá-los... Hoje foi um dia estranho. O redirecionamento do projeto me tirou o chao, me senti sem direcao, sem rumo, sem saber de que modo comecar, aonde queria chegar, etc. Acho que por tanto tempo trabalhei com clareza do meu caminho que foi difícil buscar alguma coisa nova e ainda incerta...
O exercício pra fortalecer a base (respondendo a algumas coisas levantadas durante as "apresentacoes" no Brasil) foi bem interessante e acho que trouxe alguns resultados. Ao menos sinto que consegui compreender melhor a que as pessoas se referem, nao tanto ao tônus, mas a uma dificuldade de simplesmente se manter em equilibrio, em se manter instavel. Talvez o problema do equilibrio precário seja exatamente sua característica principal, ele está em equilibrio, ainda que instável, ele nao podem cair para o desequilibrio, ele tem que se manter dentro das possibilidades do corpo de se estabilizar. Claro que a estrutura muscular ajuda e, quanto mais bem treinada ela estiver, mais amplas se tornam essas possibilidades... É isso que tenho que buscar. Foi muito bom também refazer a sequencia utilizando somente as pernas, foi possivel focar, entender melhor seu funcionamento, ou os momentos (em grande numero) em que seu uso se restringe a uma resposta ao movimento constante, sem significado ou energia própria...
O trabalho criativo em si foi mais dificil... Improvisar foi muito complicado, eu nao conseguia me manter no foco, nao conseguia manter a energia constante, nao conseguia ver a transformacao natural das coisas, racionalizei demais, enfim... A única coisa realmente interessante que apareceu, como potencial, foi um jogo entre aparência e caos interno que parece ser o fio condutor de Else por uma boa parte do texto (e sua ruptura seja talvez o grande motivo pras decisoes que ela acaba tomando). Será?
quinta-feira, 24 de janeiro de 2008
Novos Rumos em 2008
Mas a ida para o Brasil significou mais do que a oportunidade de exercitar e mostrar um pouco das coisas que estava fazendo por aqui. Na verdade, registrou uma mudanca radical nos rumos do projeto! Tudo comecou com a Ma me sugerindo de dirigi-la a distancia. Eu contra-propus: porque nao fazermos um projeto de dois performers solos, em lados distintos do oceano, que estabelecem uma rede de comunicacao e cooperacao? A idéia soa interessante: primeiro, me dá a possibilidade de ter alguém que acompanhe e tensione o que eu faco sem ter uma direcao propriamente dita. Depois, me coloca em termos objetivos: com mais alguém incluso no projeto, sou obrigado a me manter mais atento a prazos, compromissos, etc. Isso pode contribuir para a minha disciplina de producao (como ator sou muito disciplinado, já como produtor...) Nesse sentido a Má parece ser a pessoa ideal. Por entender meu método de trabalho bem, por ser flexível, por ter um olhar sobre a vida que dialoga com o meu. Soa como uma escolha acertada.
O tema? também unificamos... Pensamos em trabalhar focados em dois textos: senhorita Else, de Arthur Schnitzler e Depois do Expediente, de Franz Xaver-Kroetz. Amanha entro em sala de ensaio de novo pela primeira vez. Ansioso pra saber o que vai acontecer...
O tema? também unificamos... Pensamos em trabalhar focados em dois textos: senhorita Else, de Arthur Schnitzler e Depois do Expediente, de Franz Xaver-Kroetz. Amanha entro em sala de ensaio de novo pela primeira vez. Ansioso pra saber o que vai acontecer...
segunda-feira, 21 de janeiro de 2008
Duas apresentacoes e um pouco de treino livre
O periodo das férias no Brasil foi marcado por duas experiencias: um passo a frente (mostrar o trabalho pra algumas pessoas, colher opinioes) e um passo atrás (voltar a treinar livre, sem objetivo claro, sem preocupacao com resultados). Duas experiencias totalmente opostas, complementares, paralelas.
O treino comecou muito dificil. Eu me tornei uma pessoa mais racional, ou era a simples falta de hábito que me fazia questionar os comandos o tempo todo? Estou me tornando tao autonomo que tenho dificuldades em seguir os comandos de alguém quando eles nao sao exatamente o que eu espero? (teria sido isso que me incomodou também no Workshop da Yumiko?) Estava simplesmente cansado, com preguica, sem agilidade? Dificil saber, mas a verdade é que o primeiro dia foi um longo sofrimento, fizemos um trabalho baseado nos impulsos do corpo, e a partir de determinado momento tudo o que eu conseguia era ouvir meus impulsos quotidianos, minha vontade de ir pro chao e dormir... Depois, mais aquecido, funcionou melhor, consegui improvisar algumas coisas interessantes, montar uma pequena estrutura (apesar da pergunta pra que? nao abandonar minha pobre cabecinha), improvisar sobre ela. Se o primeiro dia foi de sofrimento, o segundo já foi um pesadelo absoluto. Sabe um daqueles dias em que nada parece funcionar? Pois é, foi assim. Nao sei se também senti falta de foco, se foi novamente o cansaco, agora misturado as dores do dia anterior, mas nada deu certo. Tudo falso, sem energia, sen vontade... Foi só na quinta que alguma coisa mudou. Talvez a perspectiva de mostrar o trabalho no fim do dia tenha me trazido energia (e foco), talvez a presenca da música tenha ajudado, talvez o simples fracasso do dia anterior tenha me criado uma necessidade de mergulhar profundamente, mas o trabalho da quinta foi muuuuuuuuuito mais prazeroso. Aquecemos bem, improvisei durante um longo tempo sem deixar o nivel de energia cair, mantendo uma qualidade extra quotidiana, me diverti, criei coisas interessantes. O curioso é que a presenca de uma segunda pessoa nao me estimulou da maneira como eu esperava. Achei que poderia ser um empurrao, uma ajuda, uma nova friccao, mas acabou se tornando quase como uma obrigacao, um compromisso... Foi estranho... Claro que o fato da gente nao treinar juntos há muito tempo, de nao termos um foco claro de trabalho, do tempo ser muito curto, de eu estar numa energia mutio de férias, etc. sao questoes que ajudaram nesse estranhamento, masfiquei curiosamente decepcionado...
Ja apresentar teve um efeito contrario. Apesar de todo o nervosismo que envolveu mostrar um trabalho que esta sendo germinado a tanto tempo sozinho, apesar da vergonha de enfrentar pessoas conhecidas, me senti muito consciente em tudo o que estava preciso, muito determinado, inteiro... Mesmo na segunda mostra, que foi feita quase um mês depois de entrar em férias (e teoricamente com um corpo totalmente fora de um fluxo de trabalho) me mostrou o quanto as energias e acoes estao entranhadas no meu corpo, retomar o trabalho foi estranhamente simples e prazeroso, leve, e mostrá-lo também, tive uma intensa sensacao de estar dividindo parte de mim, mas uma sensacao boa, leve, despreocupada... Os retornos também foram bem interessantes, consistentes, sinto que o trabalho tem um impacto, uma intensidade, uma qualidade em potencial. Ainda há muito, especialmente a se resolver, mas sinto que ele esta lá, que ele já comunica algo, que nao é um mero acumulado de coisas que só faz significado pra mim
Duas curiosidades: a primeira foi uma longa discussao sobre a minha presenca da cintura pra baixo - sempre imaginei minhas pernas como uma base muito sólida, e fui tomado por uma certa surpresa ao descobrir que talvez seja a parte mais inconsistente do meu corpo. Preciso prestar mais atencao a isso no trabalho (especialmente quando nao ha espaco para fraqueza). A segunda foi perceber que das três energias a da Lua é a mais "criticada" (nas duas mostrar isso foi levantado). Parece que de alguma forma o processo de codificacao, longe de me dar firmeza pra que eu possa explorar a energia profundamente, tem me deixado num limite perigoso entre realizar o que esta marcado e trabalhar com a qualidade do movimento. A pergunta que nao quer calar: devo abandonar o que está codificado ou insistir nisso tempo suficiente pra que se torne tao intrinseco no meu corpo que eu nao precise mais pensar para realizá-lo? (lembrando que, algum dia, terei que codificar algo, e nesse momento isso me parece o ponto mais perigoso do trabalho)
O treino comecou muito dificil. Eu me tornei uma pessoa mais racional, ou era a simples falta de hábito que me fazia questionar os comandos o tempo todo? Estou me tornando tao autonomo que tenho dificuldades em seguir os comandos de alguém quando eles nao sao exatamente o que eu espero? (teria sido isso que me incomodou também no Workshop da Yumiko?) Estava simplesmente cansado, com preguica, sem agilidade? Dificil saber, mas a verdade é que o primeiro dia foi um longo sofrimento, fizemos um trabalho baseado nos impulsos do corpo, e a partir de determinado momento tudo o que eu conseguia era ouvir meus impulsos quotidianos, minha vontade de ir pro chao e dormir... Depois, mais aquecido, funcionou melhor, consegui improvisar algumas coisas interessantes, montar uma pequena estrutura (apesar da pergunta pra que? nao abandonar minha pobre cabecinha), improvisar sobre ela. Se o primeiro dia foi de sofrimento, o segundo já foi um pesadelo absoluto. Sabe um daqueles dias em que nada parece funcionar? Pois é, foi assim. Nao sei se também senti falta de foco, se foi novamente o cansaco, agora misturado as dores do dia anterior, mas nada deu certo. Tudo falso, sem energia, sen vontade... Foi só na quinta que alguma coisa mudou. Talvez a perspectiva de mostrar o trabalho no fim do dia tenha me trazido energia (e foco), talvez a presenca da música tenha ajudado, talvez o simples fracasso do dia anterior tenha me criado uma necessidade de mergulhar profundamente, mas o trabalho da quinta foi muuuuuuuuuito mais prazeroso. Aquecemos bem, improvisei durante um longo tempo sem deixar o nivel de energia cair, mantendo uma qualidade extra quotidiana, me diverti, criei coisas interessantes. O curioso é que a presenca de uma segunda pessoa nao me estimulou da maneira como eu esperava. Achei que poderia ser um empurrao, uma ajuda, uma nova friccao, mas acabou se tornando quase como uma obrigacao, um compromisso... Foi estranho... Claro que o fato da gente nao treinar juntos há muito tempo, de nao termos um foco claro de trabalho, do tempo ser muito curto, de eu estar numa energia mutio de férias, etc. sao questoes que ajudaram nesse estranhamento, masfiquei curiosamente decepcionado...
Ja apresentar teve um efeito contrario. Apesar de todo o nervosismo que envolveu mostrar um trabalho que esta sendo germinado a tanto tempo sozinho, apesar da vergonha de enfrentar pessoas conhecidas, me senti muito consciente em tudo o que estava preciso, muito determinado, inteiro... Mesmo na segunda mostra, que foi feita quase um mês depois de entrar em férias (e teoricamente com um corpo totalmente fora de um fluxo de trabalho) me mostrou o quanto as energias e acoes estao entranhadas no meu corpo, retomar o trabalho foi estranhamente simples e prazeroso, leve, e mostrá-lo também, tive uma intensa sensacao de estar dividindo parte de mim, mas uma sensacao boa, leve, despreocupada... Os retornos também foram bem interessantes, consistentes, sinto que o trabalho tem um impacto, uma intensidade, uma qualidade em potencial. Ainda há muito, especialmente a se resolver, mas sinto que ele esta lá, que ele já comunica algo, que nao é um mero acumulado de coisas que só faz significado pra mim
Duas curiosidades: a primeira foi uma longa discussao sobre a minha presenca da cintura pra baixo - sempre imaginei minhas pernas como uma base muito sólida, e fui tomado por uma certa surpresa ao descobrir que talvez seja a parte mais inconsistente do meu corpo. Preciso prestar mais atencao a isso no trabalho (especialmente quando nao ha espaco para fraqueza). A segunda foi perceber que das três energias a da Lua é a mais "criticada" (nas duas mostrar isso foi levantado). Parece que de alguma forma o processo de codificacao, longe de me dar firmeza pra que eu possa explorar a energia profundamente, tem me deixado num limite perigoso entre realizar o que esta marcado e trabalhar com a qualidade do movimento. A pergunta que nao quer calar: devo abandonar o que está codificado ou insistir nisso tempo suficiente pra que se torne tao intrinseco no meu corpo que eu nao precise mais pensar para realizá-lo? (lembrando que, algum dia, terei que codificar algo, e nesse momento isso me parece o ponto mais perigoso do trabalho)
terça-feira, 27 de novembro de 2007
Ensaio 23 de novembro
Desapego...
Esse talvez seja uma das mais dificeis qualidades que um performer precisa ter.
No caso de um performer solo, além de difícil, ela é absolutamente imprescindível... Ninguém vai me dizer o que eu tenho que fazer... Ninguem vai determinar os rumos do trabalho e, se eu nao for capaz de determinar com clareza quais as coisas que sao realmente cenicamente interessantes, e quais sao apenas o reflexo de sensacoes às quais me apego, corro o risco de deixar o trabalho se encaminhar na direcao de uma auto-complacencia tao comum a esse tipo de trabalho...
Na sexta eu acordei mal-humorado... Dormi mal, e depois de ter passado a semana tentando definir um rumo para o trabalho da donzela, fui obrigado a concluir o inevitavel: o trabalho, da maneira como eu o estou buscando, nao tem funcionado. Preciso definir novos rumos, novas prioridades, uma nova estética. Decidi concentrar essa energia no trabalho com o texto, pensar uma cena a partir da combinacao dos dois, que nao seja fruto de uma improvisacao de movimentos pura, mas de uma idéia (como tantas vezes pedi aos meus atores)... Tomei a decisao, mas nao posso dizer que foi fácil... Uma pequena sensacao de derrota, de incapacidade me cercou durante todo o ensaio... Como uma duvida, se eu realmente sou capaz de bancar as coisas às quais estou me propondo...
Curiosamente, a improvisacao que fiz na sexta (como preparacao para o trabalho com o texto) foi uma das melhores que eu já fiz... Talvez por ser uma despedida, talvez simplesmente por ter perdido a carga de um problema, algo que tem que ser solucionado, que tem que FUNCIONAR... Pela primeira vez consegui encontrar uma imagem concreta à qual poderia me apegar, isso me ajudou terrivelmente...
De resto, ainda tenho dificuldade nas acoes sem o bastao. Passei muito tempo trabalhando-as mas, na hora da improvisacao, me perdi e nao consegui executá-las da maneira como gostaria. Isso me deixa bravo... Quanto tempo ainda preciso?
Em resumo: Ter calma, estar disponivel, estar atento
Nao querer resolver, deixar que cada coisa aconteca e encontre o seu momento
Esse talvez seja uma das mais dificeis qualidades que um performer precisa ter.
No caso de um performer solo, além de difícil, ela é absolutamente imprescindível... Ninguém vai me dizer o que eu tenho que fazer... Ninguem vai determinar os rumos do trabalho e, se eu nao for capaz de determinar com clareza quais as coisas que sao realmente cenicamente interessantes, e quais sao apenas o reflexo de sensacoes às quais me apego, corro o risco de deixar o trabalho se encaminhar na direcao de uma auto-complacencia tao comum a esse tipo de trabalho...
Na sexta eu acordei mal-humorado... Dormi mal, e depois de ter passado a semana tentando definir um rumo para o trabalho da donzela, fui obrigado a concluir o inevitavel: o trabalho, da maneira como eu o estou buscando, nao tem funcionado. Preciso definir novos rumos, novas prioridades, uma nova estética. Decidi concentrar essa energia no trabalho com o texto, pensar uma cena a partir da combinacao dos dois, que nao seja fruto de uma improvisacao de movimentos pura, mas de uma idéia (como tantas vezes pedi aos meus atores)... Tomei a decisao, mas nao posso dizer que foi fácil... Uma pequena sensacao de derrota, de incapacidade me cercou durante todo o ensaio... Como uma duvida, se eu realmente sou capaz de bancar as coisas às quais estou me propondo...
Curiosamente, a improvisacao que fiz na sexta (como preparacao para o trabalho com o texto) foi uma das melhores que eu já fiz... Talvez por ser uma despedida, talvez simplesmente por ter perdido a carga de um problema, algo que tem que ser solucionado, que tem que FUNCIONAR... Pela primeira vez consegui encontrar uma imagem concreta à qual poderia me apegar, isso me ajudou terrivelmente...
De resto, ainda tenho dificuldade nas acoes sem o bastao. Passei muito tempo trabalhando-as mas, na hora da improvisacao, me perdi e nao consegui executá-las da maneira como gostaria. Isso me deixa bravo... Quanto tempo ainda preciso?
Em resumo: Ter calma, estar disponivel, estar atento
Nao querer resolver, deixar que cada coisa aconteca e encontre o seu momento
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