terça-feira, 22 de abril de 2008

Ensaio 22 de abril

Um telefonema no meio do ensaio destruiu a minha concentracao...
Se isso pudesse definir o ensaio, eu estaria agora extremamente chateado...É verdade que foi uma conversa tensa, que durou vinte minutos de um ensaio de duas horas, mas mesmo assim eu fui capaz de render bem no tempo restante e produzir... O mais importante, a crise parece ter passado, eu volto a trabalhar, enxergar novos rumos, ter energia, me sentir estimulado...
O trabalho com as imagens do klimt me abriu um novo oceano. Puramente o trabalho de mímesis já é de uma complexidade extrema, e estou tentando nao fugir de sua dificuldade. A terceira composicao das imagens parece comecar a dar fruto, e se nos quadros estáticos ela as vezes ainda parece falsa, em movimento comeco a encontrar a melhor composicao de cada uma delas, e a improvisacao traz um componente intrínseco de feminino, do qual nao tinha me dado conta até ver o resultado que filmei... A trilha sonora parece ter ajudado, e com isso entra o terceiro austríaco na brincadeira. Depois de Schnitzler e Klimt agora é Schubert quem dá as caras. Um trio de mídias destintas, mas de conexao inegavel, especialmente porque estou trabalhando a partir das cancoes para vozes femininas. Com isso um novo foco parece inevitável, ampliado, centrado no feminino mas sem abandonar totalmente o schnitzler e a senhorita else.

Duas outras coisas que sao importantes como registro: primeiro, comeceu um processo de retomada das energias abandonadas com o trabalho sobre a srta else (lua e viuva), e numa primeira impressao, parece que nao será tao complicado assim... E parece haver uma conexao possível entre os dois trabalhos, um elo de ligacao mais profundo entre eles. Segundo, conversando e recebendo retornos sobre a apresentacao de sábado passado, a dramaturgia foi definida como o processo de transformacao da inocencia para a idade adulta, e o feminino foi um termo bastante citado. Ou seja, nao estou tao fora do meu caminho, mesmo que as definicoes ainda nao sejam claras, sequer pra mim mesmo

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Ensaio 15 de abril

Por onde recomecar?
Depois da apresentacao do final de semana e da saída da Marina do projeto, essa foi a pergunta que me assolou durante toda a semana. Qual o meu estímulo para trabalhar agora? Seria mais interessante me aprofundar ainda mais nas quatro energias da else ou preciso de algo novo, pra me revigorar? De que forma posso trazer de volta coisas interessantes que apareceram no trabalho e talvez tenham sido prematuramente abandonadas para que eu me concentrasse no trabalho com o texto?

Decidi partir para algo novo. Peguei a referência das imagens do Klimt, que sao uma referencia forte independentemente do texto da Else, ainda que tenham sido originalmente trabalhadas em relacao a ele, e trabalhei a partir da idéia de mímesis. Foi dificil porque eu estava sem a câmera, mas mesmo assim consegui realizar a mímesis de 20 imagens, e improvisar um pouco tentando buscar relacoes entre elas.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Ensaio Aberto - Theaterhaus Mitte 12.04.2008

Ha algum tempo atrás, pouco antes de ir para a bélgica, me propus a participar do dia de portas abertas no Theaterhaus Mitte fazendo um ensaio aberto do meu projeto... Nao obtive resposta, e já tinha desencanado quando sexta feira fui surpreendido por um e-mail dizendo que havia um espaco reservado pra mim no dia seguinte, as 19:30hs. (quase um horário perfeito). A primeira reacao óbvia foi dizer nao, depois um "o que eu tenho a perder?"... Lembrei de minhas mostras no Brasil, e de como tinham sido importantes pra determinar certos medos, certas falhas, e acabei achando que era um risco que eu tinha que correr...

Muito poucas pessoas estavam na sala, algumas muito queridas, um ambiente bastante propício, isso me ajudou bastante. Estava, claro, muito nervoso, mas consegui fazer as energias fluirem, apesar do ritmo um pouco acelerado que acabei determinando. Apresentei basicamente o roteiro sobre o qual tenho trabalhado, as conslusoes parecem ser muito próximas à minha sensacäo, ouvindo os retornos, especialmente o da Gabi...

Resumidamente, parece que a passagem que se inicia com a danca da sedutora é o momento em que a coisa realmente parece engrenar (nao coincidentemente é quando o sentido do todo, ou as imagens de cada energia sao mais claras pra mim). O comeco, especialmente a energia da donzela está mais complicada, até porque fica naquele limite mais delicado de um feminino óbvio. A Gabi sente falta de momentos mais fortes, claros, definidos, menos redondos e sinuosos (como talvez o que eu tinha na lua?). Pra mim, a passagem da maca também funcionou bastante bem, sinto falta de mais coisas que contribuam para a formacao de uma dramaturgia, ou pelo menos uma possível identificacao de tracos de um tema...

Também sinto falta de clareza em alguns momentos, principalmente na passagem em que a flutuacao de energias é mais rápida, ainda sinto que estou executando um virtuosismo, nao consigo encontrar corporalmente uma lógica, apesar de compreender qual ela seria racionalmene...

Ensaios 04 e 08 de abril

Foi uma semana de crise...
Primeiro estar fora, depois voltar e dar de cara com o e-mail da Marina comunicando que ela nao faz mais parte do projeto (ou seja, que eu estou de novo totalmente sozinho), que me gerou crises objetivas em relacao a projetos e datas, por fim, problemas com os horários de ensaio, conseguir sala, outros focos, mestrado, koltes, etc... Enfim, duas semanas e apenas dois ensaios... E nem pra escrever tive tempo ou paciência... Estou com problemas de foco, nao sei se continuo a vasculhar o srta else, ou se com a saída da Marina volto a focar o trabalho tao e simplesmente nas energias femininas... Se tento recupaerar coisas que ficaram perdidas ou se continuo concentrado no meu foco... Meu cronograma de repente se desfez, minha objetividade escorregou da minha mao. Amanha tenho um novo ensaio e nao sei bem o que fazer... Nao quero seguir o fluxo e continuar a fazer o que vinha fazendo, se nao achar que é exatamente o caso, curiosamente passei tanto tempo brigando pela possibilidade de ser solo e fui desestabilizado porque quis alguém ao meu lado (tinha uma estabailidade que era falsa, que nao estava em mim)
Nao vou descrever o que fiz... Já nao lembro bem, e nem tenho vontade... Já nao sei se é importante... Já nao sei de mais nada, mas espero descobrir...

quarta-feira, 26 de março de 2008

Improvisacao 20 de maio

Ensaios 19, 20 e 25 de marco

Semana de buscar novos horizontes dentro de um universo já conhecido. Se na semana passada a questao que me inquietava era descobrir se as energias tinham uma vida própria, independente do texto que as tinha gerado, essa semana me proprus a testar os limites dessa independência, e até que ponto era possivel moldar uma dessas energias a partir de uma referência externa.

Primeiro trabalhei duas das energias, utilizando um trecho específico do texto como referência para a improvisacao. A idéia era contaminar a danca, agora independente, da energia da Else, e ver qual o resultado. Curiosamente, descobri que algumas energias existem muito fortemente independentes do texto, porque elas sao projecoes menos concretas da personagem como um todo, sendo imagens complexas de um detalhe de sua personalidade. Por exemplo, trabalhando a sedutora, percebi que ela é um aspecto da personalidade de else que aparece quando ela é colocada em pressao por Dorsday, e comeca a se questionar sobre atitudes que até entao simplesmente seguia por obrigacao social. Porém, essa energia corporificada vai muito além desse questionamento, é uma energia forte, adulta, segura de si, uma energia que em nenhum momento pode ser, independente, comparada com a personalidade de Else. Isso vence um problema, que era o medo de estar me atendo demais a um universo, e me leva à constatacao de que estou conseguindo meu maior objetivo, que era usar esse uzniverso como estímulo, nunca como limite...

Trechos de texto utilizados:

Libertina: "Ter vergonha de vocês? De alguém? Imagine. Olho mais uma vez no fundo dos seus olhos, linda Else. Como seus olhos sao grandes, quando vistos de perto. Queria que alguém me beijasse nos olhos, nos meus lábios vermelhos. Meu casacao nao cobre o pé. Verao que estou descalca. Nao importa, verao muito mais, linda. Mas nao sou obrigada a fazê-lo (...) Nao preciso absolutamente ir lá embaixo. Mas quero ir. Me agrada a idéia. Nao desejei isso durante toda a minha vida?" (pag. 79)

Romântica: "Se pudesse fazer uma mágica, queria ir para o lugar mais longe do mundo. Era um barco lindo, no mediterrâneo, mas nao sozinha. Com Paul, por exemplo. Ou poderia morar em uma vila na beira do mar... Nós nos deitaríamos nos degraus de mármore, que desceriam até a aágua, ele me prenderia fortemente em seus bracos, e me morderia os lábios, como Albert fez, há dois anos, junto ao piano, aquele cara insolente. Nao. Gostaria de estender-me sobre o mármore e esperar. E finalmente chegaria um, ou vários homens, e eu poderia escolher, e os demais rejeitados se precipitariam no mar, desesperados. Ou teriam que ser pacientes e esperar o dia seguinte. Isso é que seria uma vida deliciosa. Senao, pra que tenho esses ombros soberbos e lindas pernas esguias?" (pag. 60)

Depois disso, selecionei apenas a energia da Libertina e sete imagens do klimt. Trabalhei primeiramente com a mímesis das imagens, depois comecei a improvisar tentando combinar as imagens, os elkementos que eu já tinha e a energia da libertina. Ainda é um trabalho em processo, algumas imagens parecem ter encontrado um lugar dentro da improvisacao, outras parecem ainda bruscas, como se eu interrompesse a improvisacao pra conseguir chegar a imagem, sinto que o fluxo da energia se quebra com mais facilidade, por outro lado isso tem me levado a buscar novas possibilidades de movimento, novos detalhes dentro da energia, que tem compensado o trabalho. Nao sei se todas as imagens vao servir para o trabalho, nao sei até que ponto devo me manter apoiado nelas, ou deixar que se transformem na improvisacao. Mas tem sido um trabalho interessante, e pretendo explorá-lo até seus limites.

Por fim, ontem realizei uma improvisacao com o objetivo de recuperar as quatro energias e colocá-las dentro de uma estrutura dramaturgica simples. Para isso, me utilizei novamente da srta else, e fiz uma impro: a danca da romântica, leitura da carta da mae de else, durante essa transformacao da energia da romantica pra do desespero; danca do desespero, alternada com momentos de quebra da romantica; aparicao da energia da desilusao, com pequenas quebras da romântica ou desespero; desilusao - o caminho até o quarto de Dorsday; danca da sedutora/exibicionismo; desespero - esconder o corpo; desespero/feto - estupro; desilusao - volta pra casa. Penso em manter um pouco essa estrutura como primeira estrutura de trabalho, pra poder me aprofundar em seus momentos, porque sinto que só toquei a superficie de alguns momentos. Me parecem especialmente interessantes as passagens entre desespero e desilusao (especialmente a do final), a impro conjunta de desespero e romântica, além dos já mais conhecidos estupro e exibicionismo da sedutora.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Ensaio 12 de Marco

Toda energia tem um ponto de origem, uma fonte, mas nao pode se limitar a ela. Ela só comeca a existir como corpo consistente quando abstrai o lugar de onde nasceu e passa a existir corpórea e sensorialmente livre das barreiras de uma imagem, ou um texto, ou uma memória... Quando ela passa a existir em si, quando ela pode ser trabalhada, resgata, moldada de acordo com as nossas vontades.

Esse foi o grande foco do ensaio de hoje. Dancar cada energia de forma abstrata, esquecer por alguns instantes o Srta Else, a sensacao de exibicao do corpo, as pequenas relacoes já estabelecidas que me conduziam a acoes concretas e de certa forma pré-determinadas (como na semana passada, ainda que improvisadas, mas sobre uma abóboda coerente) e simplesmente dancar cada energia, compreendê-la nao como imagem, mas como sensacao, como desenho no espaco, como tonus do corpo, como qualidade independente. Esse passo é ao meu ver fundamental para que eu possa ir alé, para que surjam novas possibilidades, novos desafios, novas combinacoes...

A Romantica apareceu com um vigor até entao inexplorado, trabalhei com a presenca de um objeto abstrato (um pano preto), que me provocou novas e inusitadas qualidades de movimento, cada vez mais ela se caracterisa como uma energia rápida e flexível, acima de tudo leve... O desespero, por sua vez, tem o tonus como um elemento fundamental. Nele ainda me sinto muito preso a determinado tipo de postura, porém no final da improvisacao comecaram a aparecer momentos interessantes, especialmente com a exploracao de espasmos rápidos e repetidos dentro da qualidade de extrema tensao. A sedutora também ganhou muito em presenca, em desenvolvimento no espaco, é de alguma forma a energia da donzela, porém adulta, madura, segura do seu poder de seducao. A concubina... A desilusao ainda é para mim o estado mais engmático. Primeiro busquei o esvaziamento e foi muito dificil dancá-lo. Cada movimento que surgia parecia trazer já uma emocao em si, e o esvaziamento acaba perdido a cada vez que tentava me movimentar (um problema com o qual já me defrontei outras vezes em energias semelhantes). Por isso trouxe uma característica do texto que é ao meu ver fundamental para a criacao dessa personagem: a necessidade de ir adiante, mesmo com o vazio interior, ou uma aparencia de placidez recheada de sensacoes. Com essas duas idéias consegui ir mais adiante, mas mesmo assim nao foi uma improvisacao simples.

Uma outra questao parece me preocupar: a música comeca novamente a ter um papel importante dentro do desenvolvimento das improvisacoes, a escolha da música certa, ou do silêncio... Considerando minha opcao de montagem, na qual tudo aconteceria explicito em cena, nao haveria nenhum operador externop, tenho que pensar como lidar com isso. Se a música vai ter esse papel, e eu vou ter que encontrar uma solucao cenica para sua incursao (ou desistir dessa idéia e ter um operador externo), ou se eu preciso pensar a construcao separada de um uso musical, e nesse caso vou trabalhar muito com a ideia do silêncio...